Urticária aquagênica: é possível ter “alergia à água”?
Tomar banho, entrar no mar, pegar chuva ou simplesmente transpirar são situações comuns do dia a dia. Mas, para algumas pessoas, o contato da água com a pele pode provocar coceira, vermelhidão e pequenas placas de urticária.
Essa condição rara é chamada urticária aquagênica.
Embora seja popularmente conhecida como “alergia à água”, essa expressão não é totalmente exata. A água não funciona como um alérgeno tradicional, como ocorre com ácaros, pelos de animais ou determinados alimentos. O que acontece é uma reação anormal da pele desencadeada pelo contato com a água.
O que é urticária aquagênica?
A urticária aquagênica é uma forma rara de urticária crônica induzível. Isso significa que as lesões aparecem após um estímulo específico — nesse caso, o contato da pele com a água.
A reação pode ocorrer independentemente da temperatura da água. Assim, tanto a água quente quanto a fria podem desencadear os sintomas.
A condição parece ocorrer com maior frequência em mulheres e costuma começar durante a adolescência ou no início da vida adulta. No entanto, também existem relatos em crianças e em pessoas que desenvolveram os sintomas mais tarde. Por ser extremamente rara, ainda existem poucos estudos e muitas informações são baseadas em relatos e pequenas séries de casos.
Quais são os sintomas?
Os sintomas geralmente aparecem alguns minutos após o contato da pele com a água, podendo levar até cerca de 20 a 30 minutos para se tornarem mais evidentes.
As lesões costumam ser pequenas elevações na pele, semelhantes a picadas de inseto, com cerca de 1 a 3 milímetros. Elas podem ser acompanhadas por:
Coceira
Sensação de ardência ou queimação
Vermelhidão ao redor das lesões
Pequenas placas elevadas na pele
Desconforto após o banho ou contato com água
As regiões mais afetadas costumam ser o tronco, o pescoço e os braços. Geralmente, as palmas das mãos e as plantas dos pés são menos atingidas.
As lesões normalmente desaparecem espontaneamente algum tempo depois que a pele seca, muitas vezes entre 30 minutos e duas horas. A intensidade e a duração, porém, variam de uma pessoa para outra.
Qualquer tipo de água pode provocar a reação?
Sim. Em algumas pessoas, os sintomas podem surgir após o contato com diferentes fontes de água, como:
Água do chuveiro ou da banheira
Água da piscina
Água do mar
Chuva
Neve derretida
Lágrimas
Suor
Entretanto, isso não significa que todos os pacientes reajam da mesma forma. Existem pessoas que apresentam sintomas com água doce, mas toleram melhor a água do mar. Outras reagem com maior intensidade dependendo da quantidade de sal, dos minerais presentes ou de outras características da água.
Essa diferença entre os pacientes reforça que a urticária aquagênica provavelmente não possui um único mecanismo.
Beber água também causa reação?
Na maioria dos casos, o problema ocorre quando a água entra em contato com a pele. Geralmente, a pessoa consegue beber água e outros líquidos normalmente.
Existem relatos raros de desconforto na boca, dificuldade para engolir ou outros sintomas após a ingestão, mas essas manifestações não representam o padrão mais comum da doença.
Por isso, quem percebe sintomas ao beber água, inchaço na boca ou na garganta, falta de ar ou dificuldade para engolir deve procurar avaliação médica.
Por que a água provoca urticária?
A causa da urticária aquagênica ainda não é totalmente conhecida.
Uma das hipóteses é que a água interaja com alguma substância presente na superfície da pele, formando ou liberando um componente capaz de atravessar a camada mais externa da pele.
Esse processo poderia ativar células chamadas mastócitos, que liberam histamina e outras substâncias inflamatórias. A histamina é uma das principais responsáveis pela coceira, vermelhidão e formação das placas de urticária.
Outra possibilidade é que a água facilite a entrada de determinadas substâncias da superfície da pele nas camadas mais profundas. Entretanto, nenhuma dessas hipóteses explica completamente todos os casos.
Em resumo: não é que o organismo esteja “rejeitando” a molécula da água. Provavelmente, a reação ocorre por causa da interação da água com componentes da própria pele e pela ativação inadequada das células envolvidas na urticária.
A urticária aquagênica é hereditária?
A maioria dos casos é adquirida, ou seja, surge em uma pessoa sem que existam outros familiares com a mesma condição.
Entretanto, já foram descritos casos familiares, sugerindo que, em algumas situações, pode existir uma predisposição genética.
Uma revisão de casos publicados identificou duas apresentações principais:
Urticária aquagênica adquirida: corresponde à maior parte dos casos.
Urticária aquagênica familiar: mais rara, encontrada em pessoas que possuem familiares com manifestações semelhantes.
Ainda não existe um exame genético específico utilizado rotineiramente para diagnosticar essa condição.
Como é feito o diagnóstico?
O diagnóstico começa pela história clínica.
É importante compreender:
Quanto tempo depois do contato com a água os sintomas aparecem
Qual é a aparência das lesões
Quais regiões do corpo são afetadas
Se a reação ocorre com água fria, morna e quente
Se suor, chuva, lágrimas, piscina ou água do mar também provocam sintomas
Quanto tempo as lesões demoram para desaparecer
Se existem falta de ar, inchaço ou outros sintomas associados
Fotografar as lesões quando elas surgem pode ajudar bastante, pois muitas vezes a pele já está normal no momento da consulta.
Para confirmar a suspeita, pode ser realizado o teste de provocação com água. Uma compressa molhada é colocada sobre uma região da pele, geralmente no tronco, durante aproximadamente 20 a 30 minutos. O teste deve ser feito com temperatura controlada, para evitar que uma reação ao frio ou ao calor seja confundida com urticária aquagênica.
O aparecimento das lesões típicas no local do teste ajuda a confirmar o diagnóstico. Outros testes podem ser necessários para investigar urticária ao frio, ao calor, colinérgica ou outras formas de urticária induzível.
Nem toda coceira após o banho é urticária aquagênica
Ter coceira durante ou depois do banho não significa automaticamente que a pessoa tenha urticária aquagênica.
Outras condições são muito mais frequentes e precisam ser consideradas.
Ressecamento da pele
Banhos muito quentes e demorados podem retirar parte da proteção natural da pele, causando ressecamento, ardência e coceira.
Dermatite de contato
Sabonetes, xampus, cremes, perfumes e produtos de limpeza podem provocar irritação ou alergia na pele.
Prurido aquagênico
No prurido aquagênico, o contato com a água causa coceira intensa, ardência ou sensação de pontadas, mas não aparecem as pequenas placas elevadas típicas da urticária.
Essa diferenciação é importante porque o prurido aquagênico pode, em algumas situações, estar associado a determinadas doenças hematológicas e exigir uma investigação específica.
Urticária colinérgica
Pode produzir lesões muito parecidas, mas é provocada principalmente pelo aumento da temperatura corporal, como durante:
Exercício físico
Banho quente
Febre
Estresse ou emoção intensa
Transpiração
Nesse caso, o verdadeiro gatilho não é necessariamente a água, mas o aquecimento do corpo.
Urticária ao frio
Surge após o contato com temperaturas baixas, água fria, vento gelado ou objetos frios. Pode ser investigada por meio de testes de provocação específicos.
Alguns pacientes podem apresentar mais de um tipo de urticária induzível ao mesmo tempo, o que torna a avaliação médica ainda mais importante.
A urticária aquagênica pode ser grave?
Na maior parte dos casos, os sintomas ficam restritos à pele.
Entretanto, manifestações sistêmicas já foram descritas, embora sejam raras. Elas podem incluir:
Dor de cabeça
Tontura
Chiado no peito
Falta de ar
Sensação de aperto na garganta
Inchaço mais intenso
Dificuldade para respirar ou engolir
Qualquer dificuldade respiratória, sensação de fechamento da garganta, inchaço da língua ou mal-estar intenso deve ser considerada um sinal de alerta e exige atendimento médico imediato.
Mesmo quando não existe risco imediato, a doença pode afetar bastante a qualidade de vida. A pessoa pode começar a evitar banho, piscina, praia, exercícios físicos e até atividades simples que provoquem suor. Por isso, o impacto emocional e social também precisa ser valorizado.
Existe tratamento?
Ainda não existe um tratamento único que funcione para todas as pessoas. O objetivo é controlar os sintomas e permitir que o paciente mantenha suas atividades com o mínimo possível de restrições.
Anti-histamínicos de segunda geração
Os anti-histamínicos não sedativos ou pouco sedativos são geralmente a primeira opção.
Esses medicamentos reduzem a ação da histamina e podem diminuir a coceira e a formação das placas.
Dependendo do padrão dos sintomas, o médico pode orientar o uso diário ou antes de uma exposição previsível à água. A escolha do medicamento e da dose deve ser individualizada.
Ajuste da dose do anti-histamínico
Quando a dose habitual não controla os sintomas, as diretrizes internacionais para urticária permitem considerar o aumento gradual da dose de um anti-histamínico de segunda geração, chegando, em situações selecionadas, a até quatro vezes a dose convencional.
Esse escalonamento deve ser feito exclusivamente com orientação médica. Não é recomendado misturar diferentes anti-histamínicos ou aumentar a dose por conta própria.
Cremes de barreira
Produtos mais oleosos e resistentes à água, como alguns cremes à base de petrolato, podem formar uma barreira temporária sobre a pele.
Eles podem ser aplicados antes do banho ou de outra exposição prevista, diminuindo a penetração da água na camada superficial da pele. Apesar de existirem relatos de boa resposta, a eficácia não é igual para todos.
Fototerapia
A fototerapia com radiação ultravioleta já foi utilizada em alguns pacientes que não responderam adequadamente aos anti-histamínicos.
O tratamento pode modificar ou espessar temporariamente a camada mais superficial da pele, reduzindo a reação. Porém, deve ser indicado por dermatologista e realizado com controle rigoroso, pois a exposição acumulada à radiação ultravioleta possui riscos.
Omalizumabe
Nos casos mais resistentes, o médico pode considerar o omalizumabe, um medicamento biológico que atua sobre a imunoglobulina E.
Embora seja amplamente utilizado em alguns tipos de urticária crônica, sua utilização específica na urticária aquagênica ainda é baseada principalmente em relatos de casos, devido à raridade da doença.
Há relatos de pacientes que não responderam aos anti-histamínicos e apresentaram melhora importante após o início do omalizumabe. Portanto, pode ser uma alternativa em situações selecionadas, após avaliação especializada.
Outros tratamentos
Outros medicamentos e terapias já foram descritos em casos isolados. Entretanto, como as evidências são muito limitadas, não devem ser considerados opções de rotina.
O tratamento precisa levar em conta:
A intensidade e a frequência das crises
O impacto na qualidade de vida
A resposta aos anti-histamínicos
A presença de outras formas de urticária
Os riscos e benefícios de cada medicamento
O que fazer no dia a dia?
Algumas medidas podem ajudar a reduzir o desconforto:
Preferir banhos mais rápidos
Evitar água muito quente, especialmente se o calor também provocar sintomas
Secar a pele delicadamente, sem esfregar
Utilizar produtos suaves e sem perfume
Aplicar hidratante adequado após o banho
Considerar um creme de barreira antes do contato com água, quando indicado
Planejar o uso do medicamento antes de atividades previsíveis, conforme orientação médica
Evitar abandonar exercícios ou atividades importantes sem antes buscar tratamento
O objetivo não deve ser viver “fugindo da água”. Até porque essa seria uma missão quase impossível — e bastante cansativa. O mais importante é identificar corretamente o problema e encontrar uma estratégia de controle que preserve a qualidade de vida.
Quando procurar avaliação médica?
Procure um médico quando:
As placas aparecem repetidamente após o banho, chuva, piscina ou suor
A coceira é intensa ou interfere no sono e nas atividades diárias
Os sintomas começaram a limitar exercícios, higiene ou lazer
Existe dúvida entre urticária, dermatite, ressecamento ou outra condição
Os anti-histamínicos habituais não estão funcionando
Há inchaço, falta de ar, chiado ou dificuldade para engolir
Como a urticária aquagênica é rara, o diagnóstico precisa ser confirmado antes de atribuir todos os sintomas à “alergia à água”.
Outros exames podem ser necessários?
Não existe um exame de sangue específico capaz de confirmar a urticária aquagênica. O diagnóstico é feito principalmente pela história clínica, pela aparência das lesões e pelo teste de provocação com água.
Entretanto, dependendo dos sintomas, o médico pode solicitar exames complementares para excluir outras doenças e identificar fatores que possam contribuir para o aparecimento ou a piora das crises.
A avaliação pode incluir hemograma, marcadores inflamatórios, função da tireoide, dos rins e do fígado, imunoglobulinas e, em situações selecionadas, dosagem de triptase e outros exames direcionados à história do paciente.
Quando houver suspeita de que sabonetes, xampus, cosméticos, conservantes ou produtos usados na água estejam provocando uma dermatite, pode ser indicado o teste de contato, também chamado de patch test. É importante destacar que esse teste não diagnostica a urticária aquagênica: ele serve para investigar alergia de contato a substâncias específicas, para excluir outras causas de alterações na pele.
Também podem ser realizados testes de provocação para urticária ao frio, ao calor, colinérgica, dermografismo e outras formas de urticária física. A investigação deve ser individualizada e de acordo com a suspeita clínica durante a avaliação médica.
Conclusão
A urticária aquagênica é uma condição rara na qual o contato da água com a pele provoca pequenas placas de urticária, coceira, ardência e vermelhidão.
Apesar de ser frequentemente chamada de “alergia à água”, seu mecanismo é mais complexo e ainda não foi completamente esclarecido.
O diagnóstico depende de uma história clínica cuidadosa, da observação das lesões e, quando necessário, de testes de provocação. O tratamento geralmente começa com anti-histamínicos de segunda geração e pode incluir cremes de barreira, ajuste supervisionado da medicação e, nos casos resistentes, terapias especializadas.
Com o diagnóstico correto e um plano de tratamento individualizado, muitos pacientes conseguem reduzir os sintomas e retomar atividades que antes pareciam impossíveis.
Dra. Andréa Rodrigues
CRM-SC 24327 | RQE 14743
Especialista em saúde respiratória
Atuação dedicada a infecções de repetição, rinite alérgica e imunidade
Super Imunne Otorrinolaringologia e Saúde
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