Usou caneta emagrecedora e o ouvido começou a incomodar?

As chamadas “canetas emagrecedoras” ganharam muita popularidade nos últimos anos. E junto com a perda de peso rápida, algumas pessoas começaram a perceber sintomas curiosos: ouvido tampado, eco na própria voz, sensação de pressão no ouvido ou até escutar a própria respiração.

Mas isso não é exatamente uma novidade para nós, otorrinos.

Esse tipo de alteração já era conhecido em pessoas que apresentam perda de peso significativa em curto intervalo de tempo, seja após cirurgia bariátrica, dietas muito restritivas ou emagrecimento acelerado por outros motivos.

Uma das possíveis explicações é uma condição chamada tuba auditiva patente.

O que é a tuba auditiva?

A tuba auditiva é uma estrutura que liga o ouvido médio à parte de trás do nariz, chamada nasofaringe.

Ela funciona como uma espécie de “válvula de ventilação” do ouvido. Sua principal função é ajudar a equalizar a pressão do ouvido com o meio externo.

É isso que acontece, por exemplo, quando subimos a serra, viajamos de avião ou mergulhamos. A pressão ao redor muda, e o ouvido precisa se adaptar.

Na maior parte do tempo, a tuba auditiva permanece fechada em repouso. Ela abre rapidamente em situações como mastigar, engolir ou bocejar.

O problema é que, em algumas pessoas, ela pode ficar mais aberta do que deveria.

O que é tuba auditiva patente?

A tuba auditiva patente acontece quando a tuba, que deveria ficar fechada em repouso, permanece aberta por mais tempo do que o normal.

Quando isso ocorre, sons internos do corpo podem ser transmitidos de forma exagerada para o ouvido. A pessoa pode passar a ouvir a própria voz com eco, escutar a própria respiração ou sentir uma pressão estranha no ouvido.

É como se o ouvido ligasse um “microfone interno” sem pedir autorização. E, convenhamos, ninguém quer ouvir a própria respiração em modo surround.

Por que a perda de peso rápida pode causar isso?

Ao redor da tuba auditiva existe tecido de sustentação, incluindo tecido adiposo, que ajuda essa estrutura a permanecer fechada quando está em repouso.

Quando acontece uma perda de peso importante em pouco tempo, pode haver redução desse tecido de suporte ao redor da tuba. Com isso, ela pode ficar mais aberta do que deveria, favorecendo o aparecimento dos sintomas.

Por isso, esse quadro pode aparecer após uso de medicamentos para emagrecimento, cirurgia bariátrica, dietas muito restritivas ou qualquer situação que leve a emagrecimento rápido e significativo.

Quais são os principais sintomas?

Os sintomas mais comuns da tuba auditiva patente incluem:

  • sensação de ouvido tampado;
  • pressão ou plenitude no ouvido;
  • eco na própria voz;
  • ouvir a própria respiração;
  • desconforto auditivo;
  • sensação de audição estranha ou abafada.

Um detalhe interessante é que algumas pessoas percebem melhora ao deitar ou ao inclinar a cabeça para frente. Isso acontece porque essas posições podem aumentar temporariamente o volume dos tecidos ao redor da tuba, ajudando a fechá-la parcialmente.

Por outro lado, os sintomas podem piorar com desidratação, exercícios intensos, perda de peso rápida e situações que reduzem ainda mais o volume dos tecidos de sustentação.

Como é feito o diagnóstico?

O diagnóstico começa com uma boa avaliação clínica. A história do paciente é muito importante, especialmente quando os sintomas aparecem após emagrecimento acelerado.

Durante a consulta, o otorrinolaringologista avalia os sintomas, examina o ouvido, o nariz e a região da nasofaringe. Em alguns casos, pode ser possível observar alterações na movimentação do tímpano relacionadas à respiração.

Exames como audiometria, imitanciometria, nasofibroscopia e testes específicos de função tubária podem ser solicitados conforme o caso.

Também é essencial diferenciar a tuba auditiva patente de outras causas de ouvido tampado, como rinite, sinusite, otite, disfunção tubária obstrutiva, rolha de cerume, alterações da articulação temporomandibular e alterações auditivas.

Nem todo ouvido tampado é igual. E, no ouvido, tratar o problema errado é como tentar abrir uma porta empurrando do lado das dobradiças: faz força, mas não resolve.

Como é o tratamento da tuba auditiva patente?

O tratamento depende da intensidade dos sintomas, da causa associada e do impacto na qualidade de vida.

De forma geral, a maioria dos pacientes deve iniciar com tratamento conservador, especialmente nos casos leves, moderados ou intermitentes. A literatura descreve que muitos protocolos recomendam pelo menos 6 meses de medidas conservadoras antes de considerar uma intervenção cirúrgica, quando possível.

Entre as medidas conservadoras, podem ser indicadas:

  • hidratação oral adequada;
  • instilação nasal de solução salina;
  • evitar desidratação;
  • evitar exercícios intensos durante períodos de crise;
  • avaliar fatores que possam piorar os sintomas;
  • mudanças posturais, como deitar ou inclinar-se para frente durante os episódios;
  • ganho de peso em casos selecionados, quando indicado e seguro, para tentar restaurar parte do tecido adiposo de suporte ao redor da tuba.

É importante destacar que o ganho de peso não é uma recomendação automática para todos. Ele precisa ser avaliado de forma individualizada, considerando o contexto do paciente, o motivo da perda de peso, estado nutricional e saúde geral.

Nos casos em que os sintomas são intensos, persistentes e prejudicam muito a qualidade de vida, podem ser considerados tratamentos cirúrgicos ou procedimentos específicos. As indicações gerais incluem falha do tratamento conservador por pelo menos 6 meses, sintomas graves, autofonia incapacitante, dificuldade de concentração ou impacto importante na rotina e no trabalho.

Entre as opções descritas na literatura estão:

  • colocação de tubo de ventilação no tímpano;
  • procedimentos para aumentar a rigidez ou massa da membrana timpânica;
  • injeções na região da tuba auditiva para aumentar o volume local;
  • uso de plug ou cateter para reduzir a abertura excessiva da tuba;
  • cirurgias mais complexas em casos graves e refratários.

As taxas de melhora variam bastante conforme a técnica utilizada. Revisões descrevem melhora aproximada de 58% com tubo de ventilação, 47% com injeção de hidroxiapatita de cálcio, 62% com técnica de shim/cateter e até 81% com cirurgia de plug, embora os resultados possam variar entre os estudos.

Apesar dessas opções, é importante ter cautela: a qualidade da evidência disponível ainda é limitada, composta principalmente por séries de casos e relatos, sem grandes estudos randomizados. Além disso, nenhuma técnica se mostrou superior em todos os cenários, e alguns pacientes podem precisar de mais de uma intervenção.

Quando procurar um otorrinolaringologista?

Procure avaliação se, após uma perda de peso rápida, você começou a sentir:

  • ouvido tampado persistente;
  • eco na própria voz;
  • sensação de ouvir a própria respiração;
  • pressão no ouvido;
  • audição estranha;
  • sintomas que melhoram ao deitar e pioram em pé, após esforço ou desidratação.

A tuba auditiva patente não costuma ser uma condição grave, mas pode ser bastante incômoda. O mais importante é fazer o diagnóstico correto, porque ela pode ser confundida com outras causas de ouvido tampado — e o tratamento muda completamente.

O tratamento geralmente começa com medidas simples e conservadoras, mas casos persistentes podem exigir avaliação mais detalhada e, em situações selecionadas, procedimentos específicos.

Se você emagreceu rapidamente e começou a sentir sintomas estranhos no ouvido, não ignore. Pode não ser “coisa da sua cabeça”. Pode ser o seu ouvido tentando avisar que algo mudou.

Dra. Andréa Rodrigues
Otorrinolaringologista com atuação dedicada à saúde respiratória, imunidade e rinite alérgica.
CRM-SC 24327 | RQE 14743

Clínica Super Imunne – Otorrinolaringologia e Saúde
Avenida Prefeito Osmar Cunha, 416, sala 402, Centro – Florianópolis/SC
WhatsApp: (48) 99105-9970.

Sobre mim
Dra. Andréa Rodrigues

• Graduação em Medicina pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA).

• Residência Médica no Hospital Betina Ferro de Souza (UFPA).

• Especialista também pela Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-facial.

• Membro Titular da Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-facial.

• Pós-graduação em Imunologia Básica e Avançada (faculdade Unyleya)

• Pós-graduação em suplementação pediátrica (Sociedade Brasileira de Medicina Funcional Integrativa)

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