Entenda como remédios, relaxamento da garganta e nariz entupido se somam.
Recentemente, uma paciente me fez uma pergunta que merece uma resposta clara: “Doutora, será que o meu remédio pode ter causado o ronco?”
Ela é jovem, magra, ativa e cuida da saúde. Nunca tinha percebido que roncava. Quem contou foi o companheiro, que notou o barulho principalmente de madrugada, quando ela dormia de barriga para cima. Ela dormia a noite inteira, sem engasgos e sem acordar assustada. Mas havia um detalhe importante: o ronco apareceu depois que ela começou um tratamento com efeito sedativo, indicado por outro especialista e importante para a saúde dela.
Desde então, o sono estava muito mais profundo e pesado. Ela precisava de nove a dez horas para acordar bem, e o nariz vivia escorrendo, a ponto de usar um dilatador nasal para tentar respirar melhor.
A pergunta dela faz todo sentido. A resposta curta é: sim, alguns medicamentos podem favorecer o ronco e até piorar a apneia do sono. Só que, quase sempre, o remédio não age sozinho. Ele soma forças com outros fatores, e o nariz entupido é um dos mais esquecidos.
Por que roncamos? E quais medicamentos podem favorecer o ronco?
O ronco é o som da vibração dos tecidos da garganta quando o ar passa por um espaço mais estreito do que deveria. Durante o sono, a musculatura da garganta relaxa naturalmente. Quando algo estreita ainda mais esse caminho ou relaxa ainda mais essa musculatura, o barulho aparece.
Alguns medicamentos entram exatamente nessa conta:
| Tipo de medicamento ou substância | Como pode favorecer o ronco |
| Calmantes e remédios para dormir | Relaxam a musculatura e deixam o sono mais profundo, o que pode dificultar o despertar quando a respiração fica prejudicada |
| Alguns medicamentos de ação no sistema nervoso (com efeito sedativo) | Causam sonolência e sono pesado; alguns também aumentam o apetite e o peso |
| Relaxantes musculares | Diminuem o tônus dos músculos, inclusive os da garganta |
| Analgésicos fortes (opioides) | Reduzem o estímulo para respirar durante o sono |
| Anti-histamínicos antigos, que dão sono | Aumentam a sonolência e podem ressecar e atrapalhar a respiração nasal |
| Sprays descongestionantes usados por muitos dias | Podem causar rebote e deixar o nariz mais entupido (rinite medicamentosa) |
| Álcool à noite (não é remédio, mas age de forma parecida) | Relaxa a garganta e piora o ronco e a apneia |
As pesquisas mostram que a resposta varia muito de pessoa para pessoa. Em alguns pacientes, esses medicamentos pioram o ronco e a apneia. Em outros, quase não mudam nada. Por isso, o medicamento raramente é o único culpado: ele costuma ser a gota d’água em um caminho aéreo que já tinha outros pontos de aperto.
Importante: não suspenda nem troque nenhum medicamento por conta própria por causa do ronco. Muitos desses remédios são essenciais para o tratamento de outras condições. O caminho é investigar e cuidar do que pode ser tratado.
O ponto principal: garganta mais relaxada + nariz que não respira bem
Pense na garganta como um tubo de parede macia. Durante o dia, os músculos mantêm esse tubo aberto. À noite, eles relaxam. Se um medicamento relaxa ainda mais essa musculatura, a parede fica mais “mole” e tende a se fechar um pouco a cada respiração. É a flacidez da musculatura da garganta, e ela explica por que o ronco costuma aparecer ou piorar de madrugada, quando o relaxamento é maior, principalmente de barriga para cima.
Só que esse tubo não trabalha sozinho. O nariz é a porta de entrada do ar, e quando ele está inflamado ou entupido, o efeito se multiplica:
- O ar precisa ser “puxado” com mais força. Isso cria uma pressão negativa na garganta, que suga as paredes já relaxadas para dentro.
- A respiração passa a ser pela boca. Com a boca aberta, a mandíbula e a língua caem para trás e estreitam ainda mais o espaço.
- A inflamação não dá trégua. Rinite alérgica, mofo, ácaros, córnetos aumentados e desvio de septo mantêm o nariz fechado justamente quando o corpo menos consegue compensar.
Por isso, na hora de investigar o ronco, uma boa pergunta não é apenas “qual remédio você toma?”, mas também “como está o seu nariz?”.
No caso da paciente, a endoscopia nasal (exame com uma câmeradinha fina, feito no consultório) mostrou a mucosa do nariz inchada, desvio do septo e secreção clara. Em casa, havia mofo no quarto e um teste alérgico com forte sensibilidade a ácaros e fungos. Nenhum fator isolado explicava tudo. Somados, contavam a história completa:
| Fator | Papel no ronco |
| Sono mais profundo por medicamento | Menos tônus muscular e menos “alarme” para acordar |
| Dormir de barriga para cima | A gravidade empurra língua e palato para trás |
| Nariz inflamado (rinite, córnetos, desvio) | Aumenta a sucção na garganta e leva à respiração pela boca |
| Mofo e ácaros no quarto | Mantêm a inflamação do nariz noite após noite |
| Anatomia da face e da garganta | Define o espaço disponível para o ar passar |
Ronco por causa de remédio: o que fazer?
O objetivo não é trocar o remédio, e sim melhorar o espaço por onde o ar passa. Na prática:
- Converse com quem prescreveu o medicamento. Informe o ronco. Qualquer ajuste de dose ou horário só deve ser feito por esse médico.
- Trate o nariz. Controle da rinite alérgica, lavagem nasal, tratamento da inflamação e, quando necessário, avaliação do desvio de septo e dos cornetos.
- Cuide do quarto. Mofo e ácaros são gatilhos importantes. Tratar a umidade do ambiente faz parte do tratamento.
- Evite álcool perto da hora de dormir. Ele relaxa a garganta de forma parecida com os calmantes.
- Experimente dormir de lado. Para quem ronca principalmente de barriga para cima, essa mudança pode ajudar.
- Faça o exame do sono quando houver suspeita de apneia. A polissonografia mede a respiração durante a noite e mostra se o problema é só o barulho ou se há pausas respiratórias.
- Considere um aparelho intraoral. Quando não é possível mudar a medicação, ele posiciona a mandíbula um pouco mais à frente e ajuda a manter a garganta aberta. A indicação depende do exame e da avaliação do caso.
Atenção: o sono pesado pode esconder a apneia
Quem usa medicamentos que dão sono costuma atribuir o cansaço ao remédio. Mas cansaço ao acordar, sonolência no dia e sono pouco reparador também são sinais clássicos de apneia do sono. Quem dorme sozinho, ou dorme muito profundamente, muitas vezes não percebe que ronca ou que para de respirar. Se alguém comentou que você ronca, vale investigar.
Procure um otorrinolaringologista se houver:
- ronco alto e frequente, que começou ou piorou depois de um novo medicamento;
- pausas na respiração ou engasgos durante o sono, notados por outra pessoa;
- dor de cabeça ao acordar ou boca muito seca de manhã;
- sonolência durante o dia, mesmo dormindo muitas horas;
- nariz entupido ou escorrendo todos os dias.
Onde buscar tratamento para ronco e apneia do sono em Florianópolis?
Se você ronca, acorda cansado, sente sono durante o dia ou percebeu que o ronco começou depois de um novo medicamento, não precisa conviver com isso. Se você procura uma otorrinolaringologista em Florianópolis para avaliar ronco, nariz entupido, rinite alérgica ou suspeita de apneia do sono, pode contar comigo. Na Clínica Super Imunne, faço uma avaliação individualizada, com endoscopia nasal quando indicada, para entender o que está estreitando a sua via aérea, solicitar a polissonografia se necessário e orientar o tratamento mais adequado, que pode incluir o cuidado com a rinite, o controle do ambiente e o aparelho intraoral para ronco. Meu olhar é voltado para a saúde respiratória, a prevenção e a qualidade do seu sono.
Além dos sintomas: cuidado para transformar a sua saúde.
Dra. Andréa Rodrigues CRM-SC 24327 | RQE 14743
Otorrinolaringologista em Florianópolis
Especialista em saúde respiratória.
Atuação dedicada a infecções de repetição, rinite alérgica e imunidade.
Clínica Super Imunne – Otorrinolaringologia e Saúde
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Referências
- Ronco (Ressonar) – Manual MSD, versão para o público
- Carter SG et al. Zopiclone increases the arousal threshold without impairing genioglossus activity in obstructive sleep apnea. Sleep. 2016;39(4):757-766
