Por que alguém ronca? A resposta pode estar onde você menos espera

Por que alguém ronca A resposta pode estar onde você menos espera

Hoje atendi aqui no consultório um paciente com queixa de ronco e cansaço durante o dia.

Mas, antes de contar o que encontrei na avaliação, quero descrever dois perfis e fazer uma pergunta.

Perfil 1: homem de aproximadamente 54 anos, acima do peso, grisalho e que pratica atividade física três vezes por semana.

Perfil 2: jovem de 19 anos, porte atlético, pratica atividade física regularmente e não apresenta excesso de peso aparente.

Qual deles você diria que foi meu paciente com queixa de ronco?

Aposto que muita gente escolheu o primeiro.

E isso é perfeitamente esperado. Existem, sim, algumas características que aumentam a chance de uma pessoa roncar, e o excesso de peso é uma das mais importantes.

Isso acontece porque o acúmulo de tecido na região do pescoço e ao redor das vias aéreas pode diminuir o espaço disponível para a passagem do ar durante o sono. Quando esse espaço fica mais estreito, os tecidos vibram com maior facilidade — e aparece aquele conhecido barulho do ronco.

Mas existe um detalhe importante:

Nem todo mundo que ronca está acima do peso.

E foi exatamente isso que aconteceu no caso que atendi.

O paciente era o jovem de 19 anos.

Definitivamente, não era o perfil que a maioria das pessoas — e, muitas vezes, até profissionais de saúde — imagina quando pensa em alguém que ronca.

Antes de contar o que encontrei na avaliação dele, vale entender uma coisa.

Afinal, por que uma pessoa ronca?

O ronco acontece quando o ar encontra maior dificuldade para passar pelas vias respiratórias durante o sono.

Quando dormimos, existe um relaxamento natural da musculatura da língua, da garganta e do palato. Se já houver algum estreitamento ao longo desse caminho, a passagem do ar pode ficar mais turbulenta e provocar a vibração dos tecidos.

É essa vibração que produz o ronco.

E existem vários fatores capazes de favorecer esse estreitamento.

Entre os principais estão:

  • excesso de peso;
  • obstrução nasal;
  • rinite e congestão nasal persistente;
  • desvio do septo nasal;
  • aumento dos cornetos nasais;
  • amígdalas ou adenoide aumentadas;
  • língua volumosa;
  • alterações do palato;
  • alterações na anatomia da mandíbula, como queixo pequeno ou posteriorizado;
  • maior flacidez dos tecidos da garganta;
  • dormir de barriga para cima;
  • consumo de álcool próximo ao horário de dormir;
  • privação de sono;
  • envelhecimento;
  • características anatômicas individuais e familiares.

Ou seja: ronco não é um problema exclusivo de quem está acima do peso.

Uma pessoa pode ser jovem, magra, praticar exercícios regularmente e, ainda assim, apresentar alterações anatômicas ou respiratórias que dificultem a passagem do ar durante o sono.

E algumas pessoas ainda têm a infelicidade de reunir vários fatores ao mesmo tempo.

Por exemplo:

excesso de peso + nariz obstruído + mandíbula posteriorizada + dormir de barriga para cima.

Nesse cenário, cada fator pode contribuir um pouco mais para diminuir o espaço disponível para a passagem do ar.

E o que estava acontecendo com aquele paciente de 19 anos?

Durante a própria avaliação otorrinolaringológica, foi possível encontrar alterações importantes que ajudavam a explicar o ronco.

O nariz estava bastante obstruído.

Ele apresentava cornetos nasais muito aumentados, associados a um desvio significativo do septo nasal.

Na prática, o ar precisava passar por um espaço menor do que deveria.

E uma obstrução nasal importante pode contribuir para uma respiração inadequada durante o sono, aumentar a tendência à respiração pela boca e participar do conjunto de fatores relacionados ao ronco.

O interessante é que essas alterações puderam ser identificadas já durante a consulta, permitindo direcionar a investigação e iniciar o tratamento.

Nariz entupido também pode fazer você roncar

Essa é uma situação particularmente importante em pacientes jovens e também em crianças.

Quem já passou uma noite com o nariz completamente congestionado por causa de uma gripe provavelmente percebeu a diferença.

Você deita, começa a respirar pela boca, o sono fica mais agitado e o barulho aparece.

O problema é quando esse “nariz de gripe” deixa de ser algo passageiro e se transforma no padrão respiratório da pessoa.

Alguns pacientes passam meses ou até anos convivendo com uma obstrução nasal e acabam se acostumando com ela.

Muitas vezes dizem:

“Doutora, eu respiro bem pelo nariz.”

Mas, quando avaliamos, percebemos que aquela pessoa simplesmente aprendeu a viver com uma passagem de ar muito menor do que deveria.

E, dependendo da intensidade da obstrução e da presença ou não de outros distúrbios respiratórios do sono, podem aparecer sintomas como:

  • sono agitado;
  • despertares durante a noite;
  • sensação de dormir muitas horas e ainda acordar cansado;
  • dor de cabeça pela manhã;
  • indisposição;
  • dificuldade de concentração;
  • sonolência durante o dia;
  • irritabilidade;
  • queda no rendimento físico ou intelectual;
  • olheiras;
  • sensação de sono não reparador.

Quando o ronco vem acompanhado de engasgos durante a noite, pausas respiratórias percebidas por outra pessoa ou sonolência excessiva durante o dia, a investigação precisa ser ainda mais cuidadosa, porque esses sinais podem estar relacionados à apneia obstrutiva do sono.

Roncar não significa necessariamente ter apneia

Essa diferença é muito importante.

Uma pessoa pode roncar e não apresentar apneia do sono.

Por outro lado, o ronco é um dos sinais que podem chamar a atenção para a possibilidade de um distúrbio respiratório durante o sono, principalmente quando está associado a:

  • pausas respiratórias;
  • engasgos noturnos;
  • sono não reparador;
  • despertares frequentes;
  • cansaço excessivo;
  • sonolência durante o dia.

Por isso, o objetivo da consulta não deve ser simplesmente “fazer o ronco parar”.

Antes de pensar no tratamento, precisamos responder:

Por que essa pessoa está roncando?

É o nariz?

É a garganta?

É a anatomia da mandíbula?

São as amígdalas?

É o peso?

É a posição durante o sono?

Existe apneia associada?

Ou existem vários desses fatores acontecendo ao mesmo tempo?

É justamente essa investigação que permite escolher o tratamento mais adequado para cada pessoa.

Quais exames podem ser realizados na investigação do ronco?

Nem todo paciente que ronca precisa realizar todos os exames. A investigação deve ser individualizada de acordo com a história clínica e com as alterações encontradas durante a consulta.

Entre os exames que podem fazer parte dessa avaliação estão:

Videoendoscopia nasal

A videoendoscopia nasal permite visualizar de forma detalhada o interior do nariz e regiões mais posteriores das vias aéreas.

Com ela, podemos avaliar alterações como:

  • desvio do septo nasal;
  • aumento dos cornetos;
  • presença de secreções;
  • sinais de inflamação;
  • pólipos;
  • hipertrofia de adenoide, especialmente em crianças;
  • outras alterações que possam estar dificultando a passagem do ar.

É um exame bastante útil porque ajuda a entender, de forma objetiva, quanto o nariz pode estar participando do problema respiratório daquele paciente.

Polissonografia

A polissonografia é o principal exame utilizado para investigar distúrbios respiratórios durante o sono, especialmente quando existe suspeita de apneia.

Dependendo do tipo de exame realizado, é possível obter informações sobre parâmetros como respiração, oxigenação, frequência cardíaca, posição durante o sono e ocorrência de eventos respiratórios.

Na prática, ela ajuda a responder uma pergunta muito importante:

aquele paciente apenas ronca ou também apresenta episódios de redução ou interrupção da respiração durante o sono?

Essa diferença pode mudar completamente a condução e o tratamento.

Testes para alergias respiratórias

Quando o paciente apresenta congestão nasal frequente, espirros, coceira no nariz, coriza ou histórico compatível com rinite alérgica, a investigação de alergias respiratórias também pode ser indicada.

Identificar os gatilhos alérgicos pode ser importante para controlar a inflamação nasal e melhorar a respiração.

Espirometria

Em alguns pacientes, principalmente quando existem sintomas respiratórios associados, como falta de ar, tosse, chiado no peito ou suspeita de asma, a espirometria pode complementar a avaliação.

A respiração não começa e termina no nariz. Por isso, em determinadas situações, é importante avaliar também como está o funcionamento das vias respiratórias inferiores.

Exames laboratoriais

Quando existem queixas como cansaço persistente, indisposição, baixa energia ou dificuldade de concentração, a avaliação não deve necessariamente ficar restrita ao sono.

Dependendo da história clínica, exames laboratoriais podem ser solicitados para investigar fatores que também podem contribuir para esses sintomas.

A avaliação de parâmetros como hemograma, ferro, ferritina, vitaminas, função tireoidiana e outros marcadores pode ser considerada de forma individualizada.

Isso é especialmente importante porque nem todo cansaço de quem ronca é causado exclusivamente pelo ronco.

Pode existir mais de um fator acontecendo ao mesmo tempo.

Tomografia computadorizada

Em alguns casos, pode ser necessária uma avaliação mais detalhada da anatomia das estruturas nasais e dos seios da face.

A tomografia computadorizada permite analisar melhor a anatomia óssea, o septo nasal, os cornetos, os seios da face e outras estruturas que podem influenciar a passagem do ar.

Ela não é necessária para todo paciente que ronca, mas pode ser especialmente útil quando existe suspeita de alterações anatômicas importantes ou quando estamos planejando determinados tipos de tratamento.

Onde investigar e tratar ronco e distúrbios do sono em Florianópolis?

Na Clínica Super Imunne, em Florianópolis, realizo avaliação otorrinolaringológica de pacientes com ronco, obstrução nasal e suspeita de distúrbios respiratórios do sono.

A investigação começa pela história clínica e pelo exame das vias respiratórias, buscando identificar os fatores que podem estar contribuindo para o problema.

Quando necessário, a avaliação pode ser complementada com exames como videoendoscopia nasal, polissonografia, testes para alergias respiratórias, espirometria, exames laboratoriais e exames de imagem, de acordo com cada caso.

O objetivo é entender não apenas se a pessoa ronca, mas principalmente por que ela ronca, se existe algum distúrbio respiratório associado e quais fatores podem ser tratados para melhorar a respiração e a qualidade do sono.


Dra. Andréa Rodrigues
CRM-SC 24327 | RQE 14743
Otorrinolaringologista em Florianópolis
Infecções de repetição – Rinite alérgica – Imunidade
@andrearodrigues_otorrino

Onde me encontrar:
Clínica Super Imunne Otorrinolaringologia e Saúde
Av. Prefeito Osmar Cunha, 416, sala 402
Centro – Florianópolis/SC

Referências

National Heart, Lung, and Blood Institute (NHLBI). Sleep Apnea – Causes and Risk Factors. National Institutes of Health.

National Heart, Lung, and Blood Institute (NHLBI). What Is Sleep Apnea? National Institutes of Health.

Mayo Clinic. Snoring – Symptoms and Causes.

Sobre mim
Dra. Andréa Rodrigues

• Graduação em Medicina pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA).

• Residência Médica no Hospital Betina Ferro de Souza (UFPA).

• Especialista também pela Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-facial.

• Membro Titular da Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-facial.

• Pós-graduação em Imunologia Básica e Avançada (faculdade Unyleya)

• Pós-graduação em suplementação pediátrica (Sociedade Brasileira de Medicina Funcional Integrativa)

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